Plantas de Poder

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“Conheço e vejo a Deus: um imenso relógio que palpita, esferas que giram dentro e fora das estrelas, a Terra, o universo inteiro, o dia e a noite, o choro e o riso, a felicidade e a dor”, Maria Abina, xamã mazateca.

“Era como se eu fosse uma consciência que tudo atravessa (…). Reconhecia que os seres vistos com os olhos fechados eram indubitavelmente mais reais do que meus amigos presentes no quarto. (…) Eu entrara em contato com um nível de realidade mais funda e mais intensa. (…) Eu sabia de mim, dos meus e do mundo – e minha capacidade de amor por tudo isso estava muito aumentada. (…) Algo de essencial mudou em mim a partir daquela noite.” Caetano Veloso, no livro Vereda Tropical. Do peiote mexicano utilizado pela xamã à Ayahuasca experimentada por Caetano e mais diversas de plantas alucinógenas espalhadas pelo mundo pode-se encontrar diversos relatos tentando descrever a experiência da ingestão, palavras como: expansão da consciência, contato com uma realidade sagrada não material, mirações de espíritos, autoconhecimento com sensações de êxtase e sofrimento, fazem parte da rotina de cerca de 11 mil pessoas que usam frequentemente plantas do poder em rituais de novas religiões brasileiras, como o Santo Daime, a União do Vegetal e a Barquinha.

O uso de plantas em rituais são milenares, achados arqueológicos levaram o homem a comprovar que há quase 4800 anos a humanidade conhece as propriedades desses vegetais. Segundo a antropóloga Bia Labate “o uso dessas plantas está ligado à origem das religiões” em seu livro O uso Ritual das Plantas de Poder. Além da Ayahuasca (combinação do cipó mariri e das folhas de chacrona nativos da floresta amazônica), fazem parte desse grupo alguns tipos de cogumelos, os cactos peiote e São Pedro, a iboga africana, a jurema, o paricá e até o tabaco e a maconha, que não propiciam as mesmas experiências das primeiras.

A mescalina, separada do cacto peiote em 1897, foi inspiração para Jean-Paul Sartre escrever A Náusea na década de 1930. Foi quando artistas e poetas beats como Allen Ginsberg e William Bourroughs começaram a inspirar com a criatividade e a sensibilidades aguçados por essas substâncias. As plantas que apresentam componentes psicoativos foram denominadas drogas por conter substâncias que alteram o estado psíquico de quem as usa. São considerados psicoativos a cocaína, originada a partir da folha de coca – e que foi popularizada por Sigmund Freud como tratamento contra a dependência de ópio -, e até o álcool, extraído da cana-de-açúcar (mas cujo efeito entorpecente já tinha sido descoberto muito antes do século 19). Os psicoativos que permitem a experiência de visões foram descritos como alucinógenos.

Até hoje, porém, os estudiosos discutem o termo. “As vivências propiciadas pelas plantas alucinógenas não fazem a pessoa sair da realidade, como a palavra sugere. A consciência permanece alerta”, alega a antropóloga Sandra Goulart. As plantas alucinógenas não têm os componentes químicos tóxicos de estimulantes como a cocaína e o ecstasy ou de depressores como a heroína e o álcool, que podem causar dependência. São drogas da selva metabolizadas naturalmente pelo organismo, que até hoje não tiveram efeitos maléficos comprovados.

As 100 principais espécies de plantas alucinógenas foram listadas no livro Plantas dos Deuses, espécie de bíblia do assunto que inclui peculiaridades brasileiras, como a jurema. Trata-se de uma planta comum na caatinga nordestina que tem sido usada nos rituais de mesmo nome, nas sessões de catimbó e nos candomblés de caboclo. Os alucinógenos naturais brasileiros fazem parte do grupo de apenas 1% de plantas medicinais da nossa flora. O compêndio dos alucinógenos foi escrito na década de 70 pelo botânico Richard Schultes e pelo médico suíço Albert Hofmann, descobridor do LSD, o ácido lisérgico, versão sintética do princípio ativo presente em alguns cogumelos. O invento de Hofmann foi o primeiro alucinógeno químico, surgido em 1943. Entre os anos 50 e 60, virou objeto de estudo do funcionamento da mente: mais de mil trabalhos foram publicados relatando pesquisas feitas como psicodélicos em 40 mil pessoas com problemas de alcoolismo e outras desordens. Mas a perigosa indução a bad trips em vários trabalhos e o uso indiscriminado do LSD pela geração flower power, de Janis Joplin e Jimi Hendrix, cortaram pela raiz os estudos científicos em 1966. Isso acabou jogando na obscuridade as pesquisas com LSD. Como se fossem as árvores do fruto proibido da Bíblia, as plantas alucinógenas foram incluídas no rol de drogas proibidas mundialmente.

A alternativa encontrada pelas comunidades tradicionais para usar as plantas diante do proibicionismo é uma brecha na lei para utilização com fins religiosos. O Santo Daime, a União do Vegetal e a Barquinha, as seitas surgidas no Brasil no século 20, tocam seus cultos tendo como figura central o chá ayahuasca por meio de uma liberação do Conselho Federal de Entorpecentes (Confen). A mesma licença foi dada na Holanda e na Espanha. Na América do norte, já havia sido criado um grupo espiritual para legalizar as experiências com o consumo de peiote entre os índios, a Igreja Nativa americana. Homem branco, portanto, não toma peiote nos EUA. A tradição do uso do cacto foi influência das tribos mexicanas. Todo mês de setembro, grande parte dos 50 mil índios huicholes peregrinam até sua montanha sagrada em Real Catorce, na Sierra Madre Occidental, para entrar em contato com Deus sob o efeito do mesmo cacto sagrado que popularizou o antropólogo Carlos Castañeda nos anos 60. Seu livro mais famoso, A Erva do Diabo, foi inspiração de “viagens astrais” com esta e outras plantas, como a datura, da mesma família da flor de lírio – único dos nossos alucinógenos de efeito reconhecidamente “delirante”.

No Gabão, nação da África Central, a seita Buiti, que consome o iboga quase virou a religião oficial do país desde a década de 30, com mais de 1 milhão de usuários da planta. Também a maconha, de poder alucinógeno discutível, tem seu uso ritualizado pelo movimento religioso rastafári na Jamaica desde o século passado e por grupos religiosos da Índia há milênios. Vêm dos hindus, por sinal, alguns dos registros mais antigos de uso ritual de cogumelos. Acredita-se que a espécie Amanita muscaria, original da Sibéria, seja o misterioso soma, droga divina da Índia antiga de 3.500 anos atrás. O cogumelo consumido ritualmente pelos astecas também era a planta mais temida pelos espanhóis que colonizaram o México. Identificada pela ciência apenas em 1851, a ayahuasca da Amazônia pode ter sido usada pelos incas da cidade sagrada de Machu Picchu desde o século 16. E o tabaco é quase uma unanimidade nos contextos espirituais dos índios do continente americano e nos cerimoniais afro-brasileiros – umbanda e o candomblé.

O efeito dos alucinógenos varia. “A intensidade da experiência depende do estado físico e psicológico de quem ingere, da quantidade e da circunstância”, diz o geriatra Otávio Castello, do Departamento Médico-Científico da União do vegetal, cuja tese de mestrado avalia o efeito da ayahuasca na saúde mental dos usuários. Estudo semelhante foi feito por outro médico, o psiquiatra Eliseu Labigalini Jr., que trabalha no Programa de Orientação e Assistência ao Dependente (Proad) da Unifesp. Dr. Labigalini entrevistou ex-dependentes químicos que se livraram do vício depois de tomar ayahuasca. “Minha conclusão é de que há um benefício de estruturação pessoal”. Mas um alcoólatra que larga a bebida para tomar um alucinógeno não estaria substituindo uma substância por outra? Segundo o Dr. Labigalini, a resposta é negativa. “As pessoas não se viciam com a ayahuasca. Há muitas que nem continuam freqüentando as sessões”, conta. A razão mais provável para o fim da dependência, segundo Labigalini, é o processo de transformação psicológica pelo qual passa a pessoa que usou um alucinógeno. “Há relatos até de drogados que se viram mortos durante o transe. É como se eles precisassem passar pelo sentimento de ir ao fundo do poço para que pudessem se recuperar”, continua. Contudo, “a ayahuasca não é para qualquer um”, concorda o “ayahuasqueiro” Victor Nieto, curandeiro peruano que já experimentou mais de 20 vegetais em 12 anos de trabalho com plantas de poder. “A pessoa tem que estar em busca de autoconhecimento e se dispor a confrontar o seu lado sombrio”, explica Victor, um ex-executivo que se curou de uma depressão ao tomar contato com as plantas.

Os estados alterados de consciência, como se percebe, levam a pessoa a um contexto de difícil compreensão, entre o mental, o espiritual e o emocional. Um estudo cognitivo-psicológico feito pela psicóloga israelense Benny Shanon tentou identificar as visões mais comuns de 18 bebedores de ayahuasca durante o transe. Imagens da morte, de pássaros, de répteis e de seres divinos foram citadas em 80% dos casos. Para descobrir o que se passa na cabeça durante a alteração de consciência — ou ampliação, como preferem os usuários das plantas —, várias pesquisas têm sido feitas. Uma das explicações diz respeito à serotonina, substância que o cérebro produz e que está presente nos princípios ativos de algumas plantas, como o alcalóide dimetiltriptamina (DMT) da ayahuasca, da jurema e do paricá. A mesma serotonina que participa do controle de sensações como o prazer e a fome está envolvida no mecanismo de ação de remédios antidepressivos. O aumento da quantidade de serotonina no cérebro poderia explicar o fato de algumas depressões serem “curadas”.

O antropólogo suíço Jeremy Narby levantou uma hipótese polêmica, ele supôs que haveria informação verdadeira na esfera alucinatória. Em sua pesquisa, ele viu semelhança entre as visões de serpentes de luz, que ocorrem em vários usuários durante o efeito da ayahuasca, coma estrutura e as propriedades físico-químicas do DNA — a molécula que guarda nosso código genético é reconhecida por emitir pequenas partículas de luz. Nessa hipótese, durante seus estados alterados, “a consciência seria, metaforicamente, reduzida a um estado molecular onde se enxergaria o DNA”. Isso explicaria, entre outras coisas, as visões de luz e a sensação de compreensão da origem do universo, comum em relatos de alteração de consciência. A teoria de Narby tem a ver também com o fato de o PCR, técnica revolucionária de multiplicação de pequenas quantidades de DNA para uso em pesquisas genéticas, ter sido descoberto por Kary Mullis durante uma assumida experiência com LSD.

Enquanto os poucos estudos acontecem, a procura pelas plantas dos deuses têm crescido de forma discreta, muito em função da moda da “nova era”. Tanto que a utilização rotineira delas criou o risco de extinção. O peiote mexicano, por exemplo, só nasce na região do deserto e pode ter seu crescimento interrompido quando colhido de forma errada. O turismo esotérico para a região de Real de Catorce já preocupa os huicholes, que têm no uso do cacto um dos traços mais marcantes de sua cultura. No Brasil, a retirada do cipó mariri passou a ser controlada pelo Ibama em 1999, e os grupos religiosos do Santo Daime e da UDV já cultivam suas próprias plantas. No Céu de Mapiá, uma comunidade de 600 pessoas no Acre instalada há 20 anos e que virou o comando central do Santo Daime, um terreno de 250 mil hectares é usado para o plantio sustentável. E ninguém precisa ingerir as milenares plantas de poder, como fizeram Caetano Veloso, Carlos Castañeda e tantos outros, para adquirir outra consciência ampla, a ecológica: trata-se de uma questão tão fundamental para a sobrevivência dessas espécies quanto é a permissão legal para as pesquisas científicas e para seu uso ritual.

O uso de ervas que agem sobre o sistema nervoso central, provocando variadas distorções da realidade, é datado de milênios por inúmeras civilizações, o uso de plantas alucinógenas é visto como uma aproximação religiosa — ou, no mínimo, mística — do ser humano com seu criador. A nova onda de experimentação dessas substâncias acontece num momento em que, mais uma vez, o materialismo excessivo leva pessoas a buscas espirituais, ainda que por meio da misteriosa influência das chamadas plantas do poder. Mas é bem provável que todas as soluções para os problemas humanos se escondam nas plantas. Ano após ano, cientistas encontram, na natureza, substâncias que amenizam dores, curam doenças, alongam a vida e, muitas vezes, matam impiedosamente. 

 fonte: revista terra de Junho/2003

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  1. oi Rê, qto tempo
    com muito prazer, volto em tu blog, a comentar. pq dizer q sou frequentador assíduo, precisa nem falar)
    …ah plantas… até onde o sagrado e o profano entralaçar-se à conveniência politico-financeira do Estado, vai existir o proibido e o permitido…o legal e o ilícito, e pq nao a verdade e a mentira…
    beijo

  2. Olá Thiago

    Mto obrigado por estar sempre presente aqui no regganata,apesar de estar pouco atualizado rsr…passei lah no blog mais não consegui deixar comentario,sempre que posso,dou uma olhada por lá,como já falei varias vezes eu ADORO seus poemas.
    Obrigado nino

    Bjus

  3. Pingback: DNA – A Internet Cósmica « nagual

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